História da Stella [01]

A terça-feira amanheceu nublada. Stella já tinha escolhido a roupa do dia na noite anterior: uma camisa branca com um terninho preto por cima, uma calça preta e um scarpin. Vestiu-se, fez uma maquiagem leve para mais um dia de trabalho e saiu de casa. Como de costume, sem café da manhã.

Já no trânsito, enquanto esperava o sinal abrir e a fila de carros andar, ela aproveitou para checar os e-mails e responder um deles. Sentiu-se produtiva e satisfeita consigo mesma. Sentia a necessidade de otimizar seu tempo e não admitia se sentir ociosa.

Chegou na empresa antes das oito e antes de todos os outros funcionários. Sua mesa estava impecavelmente organizada, conforme ela havia deixado na noite anterior. Ligou seu computador e sentou. Nesse instante, sua chefe Cristina chegou.

_Bom dia Stella – disse ela, com a voz firme e a expressão séria de sempre.

_Bom dia, Cristina – respondeu Stella, sem desviar muito a sua atenção de sua tela.

_Parabéns pelo relatório – disse Cristina, parando na frente da mesa de Stella – Vi que você me enviou às 11 horas da noite, mas como a noite foi de insônia mais uma vez, eu acabei revisando de madrugada.

_Que bom que gostou – Stella replicou, contendo uma sensação agradável de dever cumprido – Passei algumas semanas corrigindo alguns problemas no sistema e acredito que a partir de agora não teremos mais problemas.

_Ótimo – assim dizendo, Cristina foi para a sua sala.
Como era reconfortante aquela sensação de começar o dia recebendo um elogio da chefe. Stella sabia que Cristina era muito exigente e nada poderia ficar abaixo de seu padrão de excelência.

~*~

Já era meio dia quando Stella resolveu olhar as mensagens no seu celular. As mensagens eram diversas, de várias pessoas e grupos; no entanto, não havia nenhuma mensagem de Fernando, o que a fez sentir-se frustrada. Ele havia a procurado no sábado, ela aceitou o convite para sair. Stella tinha esperanças de que Fernando passasse a demonstrar mais interesse por ela, mas as coisas não mudavam. Ele a chamava quando tinha vontade, e ela estava sempre pronta para atendê-lo.

Abriu, então, a mensagem de sua amiga Letícia, que dizia:

“Amiga, vai ficar enfurnada no trabalho hoje até mais tarde de novo?”

Stella respondeu:

“Oi Lê, acredito que hoje eu consigo sair antes das oito. Por que?”

Letícia visualizou a mensagem no mesmo instante, e prontamente respondeu:

“Passa lá em casa hoje, a Paty e a Lu também vão. A gente toma um vinho e conversa um pouco”.

Stella respondeu com um “ok” e seguiu para o seu almoço.

~*~

Às nove horas da noite, Stella enfim consegue chegar na casa de sua amiga Letícia.

_Achei que você nem viria mais – disse Letícia, assim que a amiga chegou.

_Pois eu também achei que não conseguiria vir – Stella replicou, enquanto largava sua bolsa no sofá e sentava.

_Stella, quando é que você vai diminuir um pouco esse ritmo louco de trabalho? – indagou Lu, enquanto mordiscava um aperitivo.

_Gente, eu já cansei de falar isso pra vocês! – Stella replicou, um tanto sem paciência – Eu conquistei esse cargo com muito esforço, fazendo questão de mostrar pra Cristina a minha competência e a minha vontade de estar lá. Agora que eu consegui, não posso relaxar. Preciso me superar sempre, eu acho que vocês conseguem entender isso sem ficar me cobrando!

_Quem sou eu pra cobrar… – Lu resmungou.

_A questão não é te cobrar, Stella – replicou Letícia, apaziguando a conversa – A questão é que nós nos preocupamos com você. Você vive correndo, não se alimenta direito, só pensa em trabalhar… só acho que é bom ter um bom senso, entende?

_O meu bom senso me pede para me dedicar ao meu trabalho – replicou Stella, ainda sem paciência – Já estou com 34, não posso me dar ao luxo de agir de maneira inconsequente e não honrar o cargo que eu conquistei. E quer saber? Minha chefe está contente com o meu trabalho, e é isso que importa para mim.
Letícia e Lu se entreolharam, com ares de quem diz: “ok, não adianta insistir”.

_Paty, larga esse celular! – disse Stella, vendo que a amiga ainda não tinha interagido.

_Amiga, desculpa, mas não posso deixar o boy aqui sem resposta – Paty respondeu, sem tirar os olhos do celular.

_Falando em boy – continuou Letícia – Como foi sábado com o Fernando?

_Foi ótimo – disse Stella.

_Ele te procurou de novo depois? – Letícia continuou perguntando.

_Lê, ele me procurou no sábado, você acha que ele deve me procurar todo dia? – indagou Stella, com ares de irritação.

_Não, amiga, mas não custa ele te mandar uma mensagem – Letícia replicou – Vocês já estão nessa há uns dois anos, você não se cansou ainda dessa situação onde ele só te procura quando quer?

_Letícia, eu não me importo – replicou Stella – Pra mim está bom assim. Não posso me dar ao luxo de me envolver num relacionamento sério agora, pois nesse momento eu preciso me dedicar à minha carreira.

No fundo, Stella queria que desse certo com Fernando. Nunca conseguia negar um encontro com ele porque estava apaixonada, mas não queria assumir esse sentimento porque tinha consciência de que Fernando não queria nada sério.

O relacionamento dos dois era frio e superficial: quando Fernando queria vê-la, ligava ou mandava uma mensagem. Stella prontamente respondia. Depois do encontro, não se falavam mais. Às vezes passava uma semana ou duas. Às vezes passava um mês, até que Fernando a procurasse novamente.

Stella, profundamente, sofria com aquela situação. Sentia-se envolvida por ele e tinha um desejo íntimo de que o relacionamento evoluísse, ou que ele demonstrasse um pouco mais de interesse por ela.

Mas Stella seguia uma estratégia que acreditava ser eficiente: esperar Fernando se sentir maduro e pronto para um relacionamento sério. Ela acreditava que, em um futuro próximo, o relacionamento dos dois iria evoluir. Acreditava que a melhor saída era não pressionar, para que Fernando não acabasse por desistir dela. E esse envolvimento frio e sem compromisso já durava dois anos.

No seu íntimo, Stella tinha consciência de que vivia algo contrário ao que desejava mais intimamente para si. Ela queria, sim, um relacionamento no qual o seu parceiro fosse mais presente, se importasse mais com ela, compartilhasse o dia-a-dia…

Por outro lado, quando pensava em vida pessoal e em relacionamento, apesar de intimamente desejar isso, ela sentia medo de que um envolvimento mais profundo com alguém pudesse de alguma forma atrapalhar a sua vida profissional. Sua carreira era algo primordial, era algo com o qual ela se sentia bem, era algo que a satisfazia.

Quando percebia o quanto a sua vida profissional era de sucesso, o pensamento direcionava novamente à vida pessoal. Já estava com trinta e quatro anos, será que seu destino seria ficar sozinha, vivendo apenas o profissional em profundidade, mas sem experienciar um relacionamento em profundidade?

[continua]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *